Entre poções e protocolos: o feitiço da coragem e da zona de conforto
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“A sociedade não gosta de ser interrompida na sua lógica.”
Esta frase de Beatriz Goulart, do documentário sobre Maurício Kubrusly, me atravessou.
Vivemos presos à ideia de progresso linear — como se a vida precisasse sempre avançar em linha reta: eficiente, previsível, controlável. Essa crença limita o possível e nos prende ao que falta.

Quando algo rompe essa lógica — uma doença, o envelhecer, uma ruptura inesperada — tentamos rebatizar o caos com nomes que soem aceitáveis: “novo normal”.
É uma tentativa de domesticar o imprevisível.
Mas o normal, velho ou novo, nunca existiu.
Na realidade, cada corpo, cada alma, tem seu próprio compasso e seu jeito de sentir.
Quando a coragem cansa
Dois anos e meio já se se passaram desde o diagnóstico do meu câncer de mama.
A cirurgia e a radioterapia ficaram pra trás; o remédio ainda me acompanhará por cinco anos. Sigo o tratamento contra o câncer de mama para evitar a metástase.
Estatisticamente, 95% de chance de cura.
Na prática, uma montanha-russa. Um aprendizado aprofundado da convivência com o imponderável.
Mais uma vez, assumi o protagonismo de sempre: planejei, agi, negociei com o destino.
E, claro, fiz minha parte jurídica — a Amil rompeu o contrato com o hospital A.C. Camargo no meio do meu processo.
Eu, que combati a lógica para ser quem eu quisesse, precisei enfrentá-la onde ela é mais absurda.

A guerreira e o espelho
Estudar os fenômenos do machismo estrutural me ajudou a evitar armadilhas sutis — aquelas que corroem a autoestima e drenam energia.
Sem esta pretensão, o câncer me mostrou que eu também acreditava na lógica, afinal ela me dava o trabalho de desafiá-la.
Eu me orgulhava da energia sem fim: trabalho, projetos, vida social, vida amorosa, arte. Tudo em alta voltagem.
De repente, o corpo desacelerou à força. Curiosamente, aprimorei minha capacidade de sair do papel definido para as mulheres: o cuidar. Minha vida, profissional e pessoal, ficou bem mais colorida.
Aprendi a pedir mais ajuda e a fazer o meu melhor — não o impossível, nem o trabalho que cabe às outras pessoas.
Hoje integro melhor as minhas necessidades e, consequentemente, as das outras pessoas, aceitando mais o tempo das coisas. Continuo acreditando que tudo é possível; só mudei o tempo de realização.
A medicação trouxe uma fadiga que não aceita negociação.
E os elogios — “você está ótima, nem parece doente” — só ampliam o abismo entre o que eu vivo e o que as pessoas vêm. Pois tudo depende da expectativa que cada pessoa tem sobre quem está em tratamento de câncer.
Para meu oncologista, eu sou “fora da curva”. Para mim, eu preciso aprender a entender todo dia a minha condição mais lenta.
E isto significa que mesmo sendo uma pessoa entusiasta, ainda lido todo dia com a dor do luto da perda de uma parte de mim.
O outro lado da coragem
Sempre acreditei que coragem era a resposta para tudo.

Aos 20 anos, assumi minha vida, após um colapso familiar e financeiro.
Aos 25, fui estudar na França sem falar francês.
Aos 35, assumi uma diretoria inédita na Renault.
Aos 47, decidi iniciar a revisão da minha vida profissional.
Aos 52, dei meu passo para uma nova vida profissional, em área inédita para mim, e no Brasil.
Aos 53, decidi fazer um novo mestrado.
Aos 56, encarei novo divórcio para recomeçar, mais uma vez.
Aos 59, decidi abrir espaço para uma relação amorosa.
Coragem era meu sobrenome.
Ela me fez atravessar crises, enfrentar julgamentos e defender valores com unhas e dentes.
Mas também me exauriu.
Eu confundia descanso com fraqueza.
Achava que a zona de conforto era território das pessoas covardes.
O repouso da guerreira
Foi minha filha, ao escolher o Brasil em 2007, que me ensinou a parar pela primeira vez.
Desde então venho aprendendo o outro lado da moeda — o valor de recuar, silenciar, respirar, contemplar.
A coragem me levou longe; a zona de conforto me devolveu a mim.
Hoje entendo que parar também é um ato de fé.
Estabilidade não é estagnação — é terreno fértil pra amadurecer.

O feitiço da vida
Descobri que minha criatividade precisa de pausas.
Inclusive para decidir e me lançar em novos projetos como meus cursos EAD (Educação a Distância).
Que o bem-estar nasce do ritmo, não da pressa.
Que é preciso festejar antes de seguir.
E que o maior presente dessa fase é o sentir: estar inteira, comigo e com quem amo, no tempo certo de cada coisa, de cada pessoa.
Minha visão sistêmica fica muito mais afinada quando recuo. Sinto melhor as movimentações e as intenções, isto melhora minha capacidade de tomar decisões mais includentes. Com uma colaboração mais assertiva no equilíbrio do dar e receber, aprendo cada vez mais a trazer o talento das pessoas para os trabalhos em parceria e pro bono.
Hoje escolho meus trabalhos e minhas contribuições a partir do sentir, da intuição. Minha contribuição tem sentido quando encontro pessoas que realmente querem fazer a diferença, por meio de uma evolução cultural que traga mais humanidade às organizações, valorizando os atributos do feminino e suas virtudes — o cuidado, a escuta, a empatia e a colaboração.
Envelhecer — ou lidar com os efeitos colaterais dos remédios — é só mais um jeito de aprender a dançar com a finitude.
Bruxaria e bem-estar
No fim, talvez viver seja mesmo um exercício de bruxaria: transformar medo em curiosidade, cansaço em sabedoria e rotina em ritual.

Coincidência ou não, o Dia das Bruxas encerra o Outubro Rosa para quem não lida com a doença diariamente.
O Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima que haverá cerca de 73.610 novos casos de câncer de mama no Brasil em 2025.
É preciso muita bruxaria pra encarar o câncer com entusiasmo — e ainda encontrar poesia entre poções e protocolos.
Sigo, finalmente, como uma verdadeira bruxa — equilibrando coragem e conforto.
Entre poções e protocolos, aprendi que a verdadeira cura é continuar amando a vida, principalmente quando ela muda o roteiro.
A resiliência me traz o conforto para abordar a incerteza dos resultados quadrimestrais e a flexibilidade a capacidade de abordar com carinho minhas novas versões.
Se essa dança entre coragem e conforto também te atravessa, talvez seja hora de explorá-la com mais consciência.
Aprender a sustentar a coragem sem se perder do bem-estar é um processo que podemos aprender no amor — porque, se não for no amor, a vida ensina na dor.
Me escreva se quiser mergulhar nessa jornada.
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Nestes canais, compartilho reflexões sobre sustentabilidade, igualdade de gênero, gestão de cultura, liderança sustentável e muito mais. 🎯
Sobre Vera Regina Meinhard
Sou Vera Regina Meinhard, especialista em desenvolvimento humano e na dimensão humana da sustentabilidade nas organizações.
Sou movida pela paixão de conectar pessoas e ampliar a consciência sobre a integração dos valores femininos e masculinos como caminho para o sucesso sustentável.
Acredito que o ESG começa pela escuta ativa e cuidado genuíno com as pessoas e com o sistema organizacional. Levo essa visão a cada projeto que realizo.
Mestra em Sustentabilidade e Governança, com 25 anos de experiência executiva internacional no Groupe Renault France, fundei em 2013 a Meinhard Connecting Voices, onde desenvolvo soluções que unem propósito, estratégia e cultura.
Atuo como escritora, consultora e empreendedora, oferecendo:
- Consultoria em Gestão de Cultura Organizacional, com foco em ESG, valorização dos atributos femininos e inclusão da diversidade;
- Facilitação de workshops transformadores;
- Mentoria Individual e Coletiva para lideranças;
- Palestras, Treinamentos e Coaching sobre liderança sustentável, letramento em machismo estrutural e bem-estar.
Como realizadora de sonhos e mãe da Saskia, meu propósito é claro: fortalecer indivíduos e organizações para que prosperem com autenticidade, equilíbrio e impacto positivo no mundo.
Mirna Bartilotti
Vera ! Obrigada pelo artigo . Obrigada por ampliar consciências ! Saúde ! Abraço forte Mirna Bartilotti