Apaixonada pela vida, mesmo no caos!

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Apaixonada pela vida, mesmo no caos!

Apaixonada pela vida, mesmo no caos!

Em uma conversa recente, uma grande amiga, que atravessa um momento complexo na vida pessoal e profissional, me perguntou como consigo conviver com situações que ela chamou de extremamente tóxicas.

Ela conhece parte da minha trajetória. As mudanças de país e de cidade, as relações amorosas complexas, as transições profissionais desafiadoras, a jornada como mãe solo na educação da minha filha e os processos judiciais movidos pelo pai dela na França, com o risco de perder sua guarda.

E, agora, a jornada do câncer de mama: um tratamento de cinco anos, que tem como objetivo reduzir o risco de metástase e me levar ao final desse período com 95% de chance de cura. Nesse percurso, convivo com os efeitos colaterais do Femara, e com o medo de a doença voltar.

Depois de lembrar tantas experiências, ela me perguntou: “Como você consegue manter essa alegria, essa energia que conecta pessoas e a disposição para realizar tantas coisas?”

Como coach, tenho cuidado com a tentação de oferecer conselhos, mesmo quando vêm de uma boa intenção. O que funciona para mim pode não fazer sentido para outra pessoa.

Para responder, em vez de apresentar uma resposta pronta, preferi olhar para a minha própria experiência e tentar compreender o que ela me ensinou.

Eu sou porque não sou

Essa reflexão me levou a uma frase que surgiu espontaneamente em outra conversa: “Eu sou porque não sou.”

Quando a pronunciei, fiquei curiosa com minhas próprias palavras. Foi como se, em um processo de coaching, uma pergunta me levasse a refletir: o que você quer dizer com isso?

Percebi que havia colocado em palavras algo que já existia em mim, mas que eu nunca tinha elaborado daquela maneira: eu vivo para experimentar.

Desde criança, me questiono sobre quem sou e qual é a minha missão nesta vida. Conquistar medalhas e prêmios na escola e, mais tarde, posições e dinheiro não era suficiente. Sou competitiva, gosto de ganhar, mas descobri que ganhar só tem graça quando também aprendo algo sobre mim.

O que me interessa é ampliar meu repertório humano.

Talvez seja por isso que consigo me desapegar de algumas coisas e seguir adiante. Ao olhar para experiências difíceis, procuro reconhecer o que foi realmente importante, o que quero levar comigo e o que já não precisa continuar ocupando espaço na minha vida.

Na maioria das vezes, o que é importante e fica são as pessoas que marcaram minha vida. Muitas já não vejo há muito tempo, mas continuam vivas para sempre no meu coração.

Já as pessoas que me fizeram mal foram ficando para trás. Preciso até cavar na memória para lembrar delas. O que ficou dessas experiências foram os aprendizados que nutrem minha intuição.

Recentemente, comecei uma formação em coaching junguiano e retomei a leitura de Memórias, sonhos, reflexões, de Carl Jung. Fiquei feliz ao reconhecer uma proximidade entre algumas de suas reflexões e algo que venho percebendo na minha própria trajetória: a vida exterior é um espaço de exploração e desenvolvimento da vida interior.

A alegria que encontro nessa jornada não é uma compensação pelo sofrimento. É a alegria de continuar crescendo como ser humano, de descobrir dimensões de mim mesma que ainda não conhecia e de perceber que sempre há algo a aprender.

A jornada do câncer: viver sem negar o que é difícil

Não quero romantizar o câncer nem transformar essa experiência em uma história de positividade tóxica.

Não acordo todos os dias achando que tudo é maravilhoso. O tratamento tem efeitos colaterais que preferiria não ter: dores musculares, perda de massa muscular e óssea, aumento de peso, dificuldades de concentração e desconforto no sono. Como vivi uma menopausa sem esses efeitos, foi uma surpresa lidar com tantas mudanças.

A rotina também exige organização. O letrozol, que tomo como parte do tratamento, vem acompanhado de cuidados, consultas e exames periódicos. Precisei reorganizar minha agenda para incluir atividades físicas, como natação, yoga e musculação, além dos compromissos médicos.

Minha vida profissional também passou por adaptações: incorporei algumas atividades e me desapeguei de outras. Vivenciar de perto a necessidade de adaptação, pausar e recalibrar a rotina fortaleceu ainda mais o meu olhar para a experiência das pessoas colaboradoras nas organizações. Afinal, quando olhamos para a cultura corporativa, percebemos o quanto os nossos vieses inconscientes nos levam a exigir produtividade constante sem considerar as vulnerabilidades reais da vida humana.

Essa experiência também me fez reconhecer o quanto minhas competências de estruturar, planejar e organizar, aliadas à disciplina para entrar em ação, são recursos importantes para lidar com o que está ao meu alcance. Tenho usado esses recursos para organizar os cuidados e adaptar minha rotina, reduzindo de forma significativa os efeitos colaterais, e sem eliminar as incertezas.

Não conto isso para sugerir que exista uma rotina ideal ou que disciplina seja suficiente para enfrentar uma doença. Conto porque essa é a maneira como venho procurando conviver com a situação: reconhecendo o que precisa ser cuidado, organizando o que está ao meu alcance e adaptando a vida à realidade que tenho hoje.

O câncer também me levou a aprofundar questões sobre mim mesma que já me acompanhavam. Tenho descoberto aspectos da minha personalidade que ainda quero compreender melhor, inclusive na relação entre os atributos do feminino e do masculino que venho estudando há anos.

O que eu imaginava saber sobre mim nem sempre se confirma. Algumas características que atribuía a uma dimensão da minha personalidade começam a ganhar outros significados. E essa descoberta me desperta curiosidade, sem a necessidade de chegar rapidamente a uma conclusão.

É impressionante perceber quanto ainda temos a explorar dentro de nós.

O foco que escolhemos para viver

Se tivesse de resumir o que sustenta minha alegria, diria que ela tem muito a ver com o foco que coloco na vida.

Isso não significa que eu consiga escolher não sofrer, nem que todas as dificuldades estejam sob nosso controle. Sei que não é assim. Cada pessoa tem sua história, suas condições e seus limites.

Na minha experiência, meu foco é encontrar espaço para a alegria mesmo quando há algo difícil acontecendo. Procuro aproveitar o que o presente oferece, cuidar do que precisa ser enfrentado e organizar o que consigo prever. Não preciso que tudo esteja bem para reconhecer que existem muitas coisas boas acontecendo.

Como diz Fernanda Torres: “A Vida Presta”.

Essa postura não elimina o medo, a frustração ou o cansaço. Ela me ajuda a não deixar que ocupem o espaço gerando sofrimento.

Ao olhar para minha trajetória, vejo que as experiências dolorosas também trouxeram decepções, mudanças e desapegos. Não diria que precisava passar por elas para crescer. Mas reconheço que, depois de vivê-las, encontrei aprendizados que hoje fazem parte de quem sou.

O que guardo com mais carinho não é uma lista de obstáculos vencidos. São as pessoas que conheci, as relações que construí, as descobertas que fiz e as alegrias que experimentei ao longo do caminho.

Continuo gostando de ir à luta, de planejar, organizar e colocar as coisas em movimento. Mas estou aprendendo que crescer também significa reconhecer limites, recalibrar escolhas e aceitar que nem tudo acontece no ritmo que desejo.

E, no final, como diz meu parceiro: “Se ainda não deu certo, é porque não chegou ao fim.” E eu me lembro de que a delícia está no vivenciar, não na chegada. Então, o melhor é relaxar e curtir o presente com o olho no futuro.

Quantas vezes, na carreira ou na vida executiva, tentamos controlar o incontrolável e adoecemos no processo? Para que a vida seja uma aventura gostosa de viver, precisamos nos desapegar também da ilusão de controle. Isso significa aprender a influenciar o que está ao nosso alcance.

O que essa jornada revela sobre coaching, mentoria e liderança humana

Ao refletir sobre essa jornada, percebo o quanto ela se conecta diretamente à minha atuação no coaching de carreira, na gestão da cultura organizacional e no desenvolvimento de liderança humana.

Liderar — seja a própria vida, uma equipe ou uma organização — exige equilibrar as polaridades: a força e a estrutura do planejamento com a flexibilidade da aceitação; a energia do agir com a sabedoria da escuta. É o encontro da harmonia dos atributos do feminino e do masculino ampliando nosso potencial.

Nos processos de coaching e mentoria que conduzo, especialmente voltados aos desafios das mulheres na liderança e em momentos de transição complexa, meu papel não é dar respostas prontas, mas criar um espaço seguro para que você possa ampliar seu repertório, reconhecer seus vieses inconscientes e recalibrar suas escolhas com sustentabilidade.

A curiosidade que me leva a investigar minhas próprias experiências é também parte do que procuro cultivar nos processos de coaching: perguntas que ampliem a percepção, ajudem a compreender o contexto e abram espaço para novas possibilidades.

Não se trata de encontrar uma resposta que sirva para todas as pessoas. Trata-se de criar condições para que cada uma reconheça seus recursos, examine suas escolhas e encontre caminhos coerentes com seus valores e objetivos.

Também aprendi, na minha própria trajetória, que reconhecer nossa parte de responsabilidade não significa assumir a responsabilidade por tudo o que acontece. Significa distinguir o que está ao nosso alcance, identificar onde podemos agir e reconhecer aquilo que precisamos aceitar, negociar ou deixar ir. E saber pedir ajuda.

Essa distinção faz diferença nas escolhas que fazemos, nas relações que construímos e na forma como exercemos nossa liderança.

É por isso que continuo estudando, questionando e buscando integrar novas perspectivas à minha atuação. Ainda tenho muito a desenvolver e muito a descobrir. E gosto de pensar que essa curiosidade não é algo que preciso resolver, mas uma parte essencial de como escolho viver.

Um casamento do qual nunca me divorciei

A vida continua sendo uma aventura de autoconhecimento. Não termina quando encontramos algumas respostas, porque novas perguntas aparecem, outras possibilidades se abrem e continuamos mudando.

Também descobri o quanto amo conhecer pessoas. Tenho ampliado minha rede, dedicado mais tempo às relações e encontrado alegria nas trocas que me permitem aprender e compartilhar.

Quero que o conhecimento que venho construindo, inclusive sobre a integração dos atributos do feminino e do masculino, possa ajudar outras pessoas a se conhecerem melhor, ampliarem suas possibilidades e encontrarem caminhos para viver de forma mais plena e feliz.

Entender meu propósito de vida é algo que me move de forma entusiasmada e contribui muito para minha alegria. Acredito que faço a diferença neste mundo. Minha dança contribui para que outras pessoas saiam do silêncio e para que, em conjunto, construamos um mundo mais sustentável para todas e todos.

Não sei se essa é a resposta que minha amiga procurava. Sei apenas que a pergunta dela me ajudou a reconhecer algo importante sobre mim.

Eu amo viver. Amo minha vida nos momentos de alegria e nos de dor, nas conquistas e nas perdas, na saúde e na doença.

É como um casamento do qual nunca me divorciei. Uma promessa de continuar sendo fiel a mim mesma, de me amar e respeitar, em todas as circunstâncias, enquanto a vida me permitir.

E você? O que, na sua trajetória, ajuda a manter viva a vontade de continuar descobrindo, aprendendo e vivendo?

Vamos seguir essa conversa?

A vida é sobretudo uma aventura consciente quando nos desapegamos da ilusão de controle.

O autoconhecimento também faz parte dos processos de coaching e mentoria que conduzo. Se você está vivendo uma transição de carreira, precisa tomar decisões importantes ou deseja desenvolver sua liderança, envie-me uma mensagem direta (DM). Vamos conversar sobre seu momento e as possibilidades de desenvolvimento.

Vera Regina Meinhard é especialista em gestão de cultura e desenvolvimento de liderança humana. Formada em Administração pela FGV EAESP e Mestra em Sustentabilidade, fundou a Meinhard Connecting Voices em 2013, após 25 anos no Groupe Renault. Seu propósito é conectar pessoas e promover a integração consciente dos atributos do feminino e do masculino como base para organizações com ambientes mais saudáveis e resultados sustentáveis. É conselheira do IBESG, Conselheira da GVAngels e idealizadora do Comitê Alumni FGVnianas na Liderança. Vera acredita que avanços começam pela escuta presente e pela ação de valores. É mãe e valoriza a promoção de uma sociedade que integre a igualdade de gênero.

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