Igualdade de gênero e cultura organizacional: o que a política pode ensinar sobre escolhas conscientes – estudo de caso Deputadas

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Igualdade de gênero e cultura organizacional: o que a política pode ensinar sobre escolhas conscientes - estudo de caso Deputadas

Igualdade de gênero e cultura organizacional: o que a política pode ensinar sobre escolhas conscientes – estudo de caso Deputadas

Ao longo da série que construímos entre julho e agosto, percorremos uma jornada que conectou pertencimento, atitude protagonista, diálogo, nossos valores, representatividade e análise crítica.

Refletimos sobre como a participação em espaços de decisão exige assumir uma postura com atitude protagonista e o exercício do diálogo com visões plurais. Em uma sociedade marcada pela desinformação fazer escolhas conscientes exige pensamento crítico. Assim, no estudo de caso do artigo anterior, analisamos a disputa para o Senado por São Paulo.

Agora, avançamos para a disputa por vagas na Câmara dos Deputados e Deputadas. Se no Senado o desafio era escolher entre poucas alternativas sob o olhar de mandatos individuais, na Câmara nos deparamos com o desafio oposto: a complexidade de centenas de escolhas dentro de um sistema proporcional regido por cotas partidárias.

Candidaturas de mulheres à Câmara dos Deputados e Deputadas Federais por São Paulo

Quando saímos do Senado (estudo de caso com apenas 3 candidatas) e passamos para a disputa proporcional da Câmara dos Deputados, o ecossistema de análise muda drasticamente.

O primeiro achado dessa análise é a própria opacidade do acesso à informação: enquanto os dados agregados indicam cerca de 34% a 36% de candidaturas de mulheres em São Paulo (uma média de 370 a 400 mulheres disputando as 70 vagas), os portais públicos e consolidados apresentam divergências operacionais nas somatórias e não oferecem filtros consolidados por gênero e por partido sem a necessidade de uma busca nominativa uma a uma.

Isso traz dois aprendizados fundamentais para a nossa reflexão:

  1. Desafio do letramento de dados na cidadania: A transparência passiva (disponibilizar a informação em arquivos brutos ou listas fragmentadas) não é o mesmo que transparência ativa (tornar o dado acessível e auditável para o público).
  2. A necessidade de recorte por amostra: Como em qualquer estudo analítico sério — seja nas ciências sociais ou nos diagnósticos de cultura organizacional —, quando a população é extensa e os repositórios brutos apresentam assimetrias de consolidação, a melhor prática científica e analítica é combinar a visão macro (panorama quantitativo) com uma amostra qualitativa representativa.

Igualdade de gênero e cultura organizacional: o que a política pode ensinar sobre escolhas conscientes - estudo de caso Deputadas

Vale lembrar que as Mulheres são maioria entre as pessoas que votam no Brasil, mas continuam sendo minoria entre as candidaturas. Nas eleições de 2026, elas representam 52,8% do eleitorado brasileiro, enquanto correspondem a 34,85% das candidaturas. O avanço existe – elas eram 33,8% nas eleições gerais de 2022-, mas a distância entre a participação das mulheres no eleitorado e sua presença entre quem pode ser eleita permanece significativa. São Paulo acompanha esta representatividade numérica com 34,6%.

Amostra para o exercício de análise: como aplicar os critérios na prática

Para mim, o primeiro recorte da amostra é a legenda. Antes de analisar candidaturas individuais, considero importante conhecer as pautas defendidas pelo partido ou federação, sua posição em relação às questões que considero relevantes e seu histórico de atuação. Só depois desse primeiro olhar faço o recorte das candidaturas que serão analisadas.

Essa ordem não é um detalhe metodológico. No sistema proporcional, quando votamos em uma candidatura, também estamos contribuindo para a composição da bancada da legenda. Por isso, se determinadas pautas são importantes para nossa decisão — como a igualdade de gênero —, não basta conhecer a trajetória e os posicionamentos da pessoa candidata. É preciso também compreender a legenda pela qual ela concorre.

Essa checagem integrada — entre pessoa e sigla — pode, inclusive, produzir um diagnóstico revelador sobre nossas próprias escolhas.

Ela pode nos levar a perceber se estamos escolhendo uma candidatura porque conhecemos sua trajetória e analisamos seus posicionamentos ou se estamos votando por inércia, por repetição de padrões passados, por influência familiar, pela força de determinados nomes ou pelo impacto dos algoritmos e das bolhas nas redes sociais.

Conhecer a candidatura sem conhecer a legenda deixa uma parte importante da decisão de fora. Da mesma forma, escolher uma legenda apenas por sua posição no espectro político, sem examinar as pessoas que efetivamente disputarão as cadeiras, também pode nos levar a decisões pouco fundamentadas.

O exercício, portanto, não pretende dizer qual partido ou qual candidata escolher. Pretende propor uma forma de olhar.

Para demonstrar como transformar informação em uma análise estruturada, sem se perder diante das centenas de opções disponíveis, proponho aqui um recorte metodológico a partir da escolha do partido ou dos partidos.

No meu caso, escolhi os dois partidos que considero alinhados à minha visão de mundo, especialmente em relação às questões sociais e à igualdade de gênero. A partir desse primeiro recorte, estabeleci outros critérios para chegar às candidaturas que seriam analisadas: gênero — mulheres —, nível de escolaridade — superior completo — e perfil profissional e experiência, considerando áreas como administração, advocacia e ciência política, além do exercício do mandato parlamentar, no caso de candidata à reeleição. Também considerei o patrimônio declarado.

Com esses critérios, cheguei a uma lista de nove candidatas a deputada federal pelo estado de São Paulo.

Se você tiver interesse, estou à disposição para compartilhar as nove candidatas que compõem minha amostra e os resultados da análise que realizei a partir desses critérios. A ideia não é indicar em quem votar, mas tornar visível o caminho que percorri para chegar às minhas escolhas.

A escolha das nove candidatas serve, portanto, para tornar possível a aplicação concreta da matriz apresentada no Artigo #7 — Histórico da Trajetória Política, Atuação Institucional, Posicionamentos Públicos, Liderança e Coerência — sem a pretensão de esgotar a análise das candidaturas existentes.

Mais importante do que os nomes escolhidos para este exercício é o método de análise. A proposta é que você possa definir seus próprios critérios para construir sua amostra e, a partir dela, aplicar os mesmos cinco critérios às candidaturas da sua preferência, às pessoas que está considerando votar ou àquelas que integram a chapa que pretende apoiar.

Examinar a trajetória da pessoa candidata e a atuação da legenda, utilizando critérios objetivos, é o que nos permite sair do piloto automático e transformar informação em uma decisão de voto mais consciente — superando discursos superficiais e exercendo uma cidadania verdadeiramente fundamentada em evidências.

E esse mesmo olhar eu apliquei às deputadas estaduais para definir minha amostra. A partir do mesmo recorte utilizado para filtrar as candidatas — considerando partido ou partidos, gênero, escolaridade, perfil profissional e experiência, além do patrimônio declarado — cheguei a uma amostra de 10 candidatas a deputada estadual por São Paulo, que serão analisadas a partir dos cinco critérios que defini.

Vamos seguir essa conversa?

Aplicar critérios de análise a um volume expressivo de dados nos ensina uma lição valiosa: a complexidade não deve ser desculpa para a superficialidade.

Da mesma forma que a Justiça Eleitoral e as siglas partidárias precisam evoluir na transparência e no alinhamento entre o discurso de igualdade de gênero e a viabilidade real das candidaturas de mulheres, as organizações também enfrentam o desafio de ir além dos indicadores genéricos em suas métricas sobre Igualdade de Gênero e governança.

Escolhemos lideranças, formamos equipes e valorizamos a gestão de cultura organizacional a partir da precisão dos critérios que adotamos. Desenvolver o pensamento crítico e o letramento de dados é o que transforma o discurso sobre igualdade de gênero em prática consistente de gestão.

Como a sua organização tem estruturado os critérios e dados para promover uma liderança humana e consciente

👉 Se essa reflexão faz sentido para os desafios da sua organização, me escreva para continuarmos essa conversa.

Vera Regina Meinhard é especialista em gestão de cultura e desenvolvimento de liderança humana. Formada em Administração pela FGV EAESP e Mestra em Sustentabilidade, fundou a Meinhard Connecting Voices em 2013, após 25 anos no Groupe Renault. Seu propósito é conectar pessoas e promover a integração consciente dos atributos do feminino e do masculino como base para organizações com ambientes mais saudáveis e resultados sustentáveis. É conselheira do IBESG, membra da GVAngels e idealizadora do Comitê Alumni FGVnianas na Liderança. Vera acredita que avanços começam pela escuta presente e pela ação de valores. É mãe e valoriza a promoção de uma sociedade que integre a igualdade de gênero.

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