Experiência das pessoas colaboradoras: protagonismo não é fazer barulho. É assumir responsabilidade

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Experiência das pessoas colaboradoras: protagonismo não é fazer barulho. É assumir responsabilidade

Experiência das pessoas colaboradoras: protagonismo não é fazer barulho. É assumir responsabilidade

Liderança humana, cultura organizacional e escolhas conscientes.

O desconforto de olhar para si

No artigo anterior, propus uma reflexão sobre pertencimento.

Falamos sobre como o comprometimento saudável nasce da sensação de fazer parte e como pertencimento não é algo que apenas recebemos. É algo que também construímos por meio da nossa participação.

Mas existe uma consequência importante dessa reflexão. Se pertencer exige participação, qual é a qualidade dessa participação? Porque participar não significa necessariamente contribuir. E ocupar espaço não significa necessariamente assumir responsabilidade.

Vivemos um momento histórico em que opiniões são compartilhadas em velocidade crescente. Temos acesso a uma quantidade inédita de informação, canais para expressar nossas visões e inúmeras oportunidades de manifestação.

Ainda assim, me pergunto se estamos desenvolvendo, na mesma intensidade, nossa capacidade de análise crítica, visão sistêmica e responsabilidade sobre os impactos das nossas escolhas, e consequentemente intervenções.

Mas essas intervenções são conscientes? Refletimos sobre os impactos que nossas ações produzirão ou apenas descarregamos a raiva gerada pelas nossas frustrações?

Brené Brown explora de maneira brilhante este tema no vídeo “de quem é a culpa? “.

Talvez essa seja uma das grandes diferenças entre reação e atitude protagonista. Afinal reclamar e culpar não leva a lugar nenhum. Traz a ilusão de controle, e é apenas uma liberação temporária da dor causada pelo desconforto de uma frustração.

O que é o oposto de viver nossas relações de maneira responsável.

Gerenciar frustrações é reconhecer nossa vulnerabilidade e criar espaço para conversas mais saudáveis conosco e com as outras pessoas, sem terceirizar a responsabilidade pelo que sentimos. É desse exercício que nascem a empatia, a conexão humana e a capacidade de construir respostas mais conscientes e eficientes.

Liderança humana: protagonismo não é fazer barulho

Muitas vezes confundimos atitude protagonista com visibilidade. Com aceitar qualquer desafio. Ser a pessoa que resolve tudo.

Acreditamos que atitude protagonista é falar mais alto, ocupar mais espaço, opinar sobre tudo ou reagir imediatamente a tudo o que acontece ao nosso redor.

Mas atitude protagonista é saudável e exige algo diferente.

Exige consciência. Exige coragem para olhar uma situação e perguntar:

O que pertence ao contexto e o que pertence à minha responsabilidade?

Responder essa pergunta exige coragem, porque nem sempre gostamos da parte da realidade que nos cabe transformar. Essa reflexão me remete novamente às ideias de Fred Kofman. Agir com atitude protagonista não significa controlar a realidade. Significa reconhecer a realidade como ela é e escolher, de forma consciente, como agir diante dela.

Por isso, atitude protagonista não é sobre ter razão. É sobre assumir sua parte de responsabilidade.

A liberdade de fazer escolhas conscientes

Uma das maiores ilusões contemporâneas talvez seja acreditar que liberdade significa fazer tudo aquilo que desejamos. No entanto é preciso ter consciência de que toda escolha produz consequências. E toda consequência exige responsabilidade.

Quando compreendemos isso, passamos a olhar nossas decisões de forma diferente. Escolhas conscientes nos ajudam a compreender o contexto no qual decidimos agir. Elas nos permitem reconhecer mudanças, rever posições e redirecionar caminhos quando percebemos que algo deixou de fazer sentido.

A liberdade não está em nunca mudar de direção. A liberdade está em nos permitir fazer escolhas alinhadas aos nossos valores e revisá-las quando novas informações ampliam nossa compreensão da realidade.

Essa é uma competência essencial para a vida organizacional. E também para a vida em sociedade.

A experiência das pessoas colaboradoras começa pelas escolhas cotidianas

Frequentemente associamos a experiência das pessoas colaboradoras apenas às ações da organização. Sem dúvida, a liderança humana e a gestão da cultura organizacional possuem responsabilidades fundamentais nesse processo. Mas a experiência que vivemos nos ambientes também é influenciada pelas escolhas que fazemos todos os dias.

Escolhemos como participamos das conversas.

Escolhemos como lidamos com divergências.

Escolhemos se alimentamos conflitos ou construímos pontes.

Escolhemos se compartilhamos informações sem verificar sua consistência ou se exercemos análise crítica antes de reproduzi-las.

Escolhemos se contribuímos para fortalecer a confiança ou para ampliar a desinformação.

Escolhemos ser egoístas ou altruístas levando em conta os objetivos que constroem um coletivo no qual queremos viver.

Em outras palavras, ajudamos a construir os ambientes que habitamos.

Cultura organizacional e visão sistêmica

Nenhuma decisão gera impacto apenas para quem a toma. Muito pelo contrário. A vida em qualquer espaço é construída por relações, e nossas escolhas, por menores que sejam, produzem efeitos que alcançam outras pessoas.

Isso é verdade nas organizações.

Isso é verdade nas comunidades.

Isso é verdade na sociedade.

Por isso, atitude protagonista exige visão sistêmica.

Por isso, ela também exige a consciência de que nossas escolhas não acontecem no vazio. Elas afetam outras pessoas, influenciam relações e contribuem para fortalecer ou fragilizar os ambientes dos quais fazemos parte.

Talvez seja justamente por isso que atitude protagonista e cidadania estejam tão conectados.

Antes de falar sobre eleições, representantes ou instituições, existe uma pergunta anterior:

Como cada um e cada uma de nós participa da construção da realidade que deseja viver?

Igualdade de gênero também começa pela participação

Quando falamos sobre participação e responsabilidade coletiva, a igualdade de gênero também faz parte dessa reflexão.

As mulheres representam a maioria da população brasileira e uma parcela importante da força de trabalho. Ainda assim, continuam sub-representadas em muitos espaços de decisão. Antes de discutir representatividade, porém, existe uma questão anterior: participação. Nenhuma transformação coletiva acontece sem o envolvimento ativo das pessoas que desejam promovê-la.

Nos próximos artigos quero aprofundar justamente essa relação entre cidadania, valores, participação e responsabilidade coletiva.

Porque, assim como a qualidade das minhas escolhas profissionais impacta meu bem-estar, a qualidade da democracia não depende apenas das instituições. Cada um e cada uma de nós impacta a construção da sociedade.

Vale lembrar que uma ausência de decisão é, em si, uma decisão. Podendo representar consentimento com algo que não te representa. Vivemos uma interdependência e precisamos agir com isso na mente. O mundo que se constitui depende da qualidade da participação das pessoas.

E participação responsável exige análise crítica com visão sistêmica, coragem para dialogar e disposição para compreender a complexidade dos contextos que vivemos. E energia para agir. Energia que vem da nossa certeza de fazermos a diferença.

Vamos seguir essa conversa?

Atitude protagonista não é fazer barulho.

Não é reagir impulsivamente.

Não é ter opinião sobre tudo.

Atitude protagonista é assumir responsabilidade pelos impactos das nossas escolhas.

Por isso, deixo uma pergunta:

Em quais situações da sua vida você tem atuado com atitude protagonista? E em quais talvez esteja apenas reagindo aos acontecimentos? Ou só observando e consentindo sem perceber a direção que autoriza?

👉 Se essa reflexão faz sentido para você ou para sua organização, esse é um dos temas que trabalhamos em desenvolvimento de liderança humana, gestão de cultura organizacional, experiência das pessoas colaboradoras, coaching e mentoria.

Vera Regina Meinhard é especialista em gestão de cultura e desenvolvimento de liderança humana. Formada em Administração pela FGV EAESP e Mestra em Sustentabilidade, fundou a Meinhard Connecting Voices em 2013, após 25 anos no Groupe Renault. Seu propósito é conectar pessoas e promover a integração consciente dos atributos do feminino e do masculino como base para organizações com ambientes mais saudáveis e resultados sustentáveis. É conselheira do IBESG, membra da GVAngels e idealizadora do Comitê Alumni FGVnianas na Liderança. Vera acredita que avanços começam pela escuta presente e pela ação de valores. É mãe e valoriza a promoção de uma sociedade que integre a igualdade de gênero.

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