Representatividade e igualdade de gênero: por que só eleger mais mulheres não basta
Cultura organizacional, cidadania e análise crítica para fortalecer a representatividade nos espaços de decisão.
Nos quatro primeiros artigos desta série, refletimos sobre pertencimento, protagonismo, diálogo e coerência.
Falamos sobre a importância de participar da construção dos ambientes dos quais fazemos parte. Isto significa assumir responsabilidade pelas nossas escolhas, conviver com diferentes perspectivas sem transformar divergências em conflitos e agir de forma coerente com os valores que defendemos.
Agora, quero levar essa reflexão para um dos espaços onde nossas escolhas produzem consequências mais amplas: a democracia.
Estamos nos aproximando de mais um período eleitoral. E talvez exista uma pergunta que mereça ocupar mais espaço nas nossas conversas:
Quem realmente nos representa?
Essa pergunta parece simples. Mas a resposta exige mais cuidado do que normalmente dedicamos a ela.
Igualdade de Gênero: Representatividade importa
Quando falamos sobre igualdade de gênero, um dos argumentos mais frequentes é a necessidade de ampliar a presença das mulheres nos espaços de decisão. E eu concordo.
Os números mostram que essa presença ainda está muito distante da realidade da representatividade na sociedade brasileira. As mulheres representam cerca de 52% da população brasileira.
Historicamente, a força de trabalho (pessoas de 14 anos ou mais que estão ocupadas ou em busca ativa por emprego) mantém um padrão de maior participação de homens. Os homens ainda representam a maioria da população ativa, correspondendo a cerca de 57% da força de trabalho total do país, enquanto as mulheres representam aproximadamente 43%.
Em relação à taxa de participação, a cada 100 homens em idade de trabalhar, 70 estão na força de trabalho. Já entre as mulheres, pouco mais da metade — entre 51 e 53 a cada 100 — busca ou exerce trabalho remunerado. Economistas e sociólogos apontam que essa diferença de quase 20 pontos percentuais está diretamente ligada à sobrecarga de trabalho doméstico não remunerado e às responsabilidades de cuidado (com filhos, filhas e pessoas idosas da família), que culturalmente ainda recaem muito mais sobre as mulheres.
Nas organizações, somos apenas 5% das pessoas que ocupam a posição de CEO nas empresas listadas no IBOVESPA. Segundo a pesquisa Panorama Mulheres 2025, ocupamos aproximadamente 17% das presidências e dos conselhos, 30% das diretorias e apenas 24% das vice-presidências.
No Poder Legislativo, a situação não é diferente: ocupamos aproximadamente 18% das cadeiras na Câmara das Deputadas e Deputados e apenas 19% no Senado. No Executivo Federal, tivemos somente uma presidente mulher em toda a nossa história.
E na Justiça: em 134 anos de existência do STF (1891), apenas três mulheres ocuparam uma cadeira na Suprema Corte. Em toda a história do Ministério da Justiça (1808), nunca houve uma Ministra. Desde a promulgação da lei de criação da Advocacia-Geral da União (AGU), em 1993, tivemos apenas uma mulher no cargo de Advogada-Geral. As mulheres representam 38% do quadro geral de juízes e juízas no Brasil, mas ocupam apenas 25% dos cargos no segundo grau (Tribunais de Justiça).
Esses números revelam um desequilíbrio profundo. Uma democracia não se fortalece quando metade da população permanece sub-representada nos espaços onde as decisões são tomadas.
Igualdade de Gênero: existe uma segunda pergunta
Ao longo dos últimos anos, percebi que muitas pessoas resumem essa discussão a uma frase bastante conhecida: “Precisamos eleger mais mulheres.” Continuo acreditando nisso. E essa frase, sozinha, já não me parece suficiente. Porque existe uma segunda pergunta que raramente fazemos:
Essas mulheres representam quais valores? Quais pautas? Quais escolhas?
Representatividade não é apenas identidade pelo sexo biológico de nascimento. Uma mulher não representa automaticamente o que eu acredito ser importante para que as mulheres tenham um tratamento equânime na sociedade. Da mesma forma, um homem pode defender pautas fundamentais para a igualdade de gênero.
É justamente aqui que a análise crítica se torna indispensável.
Uma conversa que me fez pensar
Recentemente participei de uma conversa em um círculo de pessoas na área de investimentos.
Durante o debate, um homem afirmou que achava absurdo a deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) ser presidente da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher na Câmara dos Deputados e Deputadas — cargo para o qual foi eleita em 11 de março de 2026, tornando-se a primeira mulher trans a presidir esse colegiado.
O que mais me chamou a atenção não foi a opinião dele. Foi a firme convicção de que eu, necessariamente, concordaria com ela. Principalmente após eu ter feito um pitch de 2 minutos sobre minha missão com a igualdade de gênero e o trabalho pro bono que realizo no comitê alumni FGVnianas na Liderança.
O ponto desta reflexão não é discutir a atuação da deputada. É refletir sobre uma expectativa bastante comum nas discussões sobre representatividade.
Em primeiro lugar, ele questionou a identidade de Erika Hilton, que é uma mulher.
Em segundo lugar, ao questionar a identidade dela em relação ao grupo das mulheres, ele revelou uma expectativa bastante comum: a ideia de que pertencer a determinado grupo significa, necessariamente, defender determinadas posições preestabelecidas.
A realidade é muito mais complexa. Nenhuma pessoa representa automaticamente todas as pessoas que compartilham o mesmo grupo identitário. Para representar o que valorizamos, essa pessoa faz escolhas. E isso exige uma trajetória minimamente coerente com o que defendemos. Exige compromisso com pautas reais — aquelas que de fato nos representam.
O que significa representar?
Representar não significa pensar exatamente como eu penso. Representar significa assumir a responsabilidade de defender interesses, necessidades e direitos de um determinado grupo, dialogando com a complexidade da sociedade.
Por isso, identidade importa. Mas identidade não basta. Trajetória importa. Coerência importa. Histórico de decisões importa.
O desafio da análise crítica
Vivemos em uma sociedade cada vez mais complexa. Todos os dias somos chamados a interpretar uma quantidade enorme de informações. Ao mesmo tempo, o Indicador de Alfabetismo Funcional (INAF) mostra que cerca de 29% da população brasileira apresenta dificuldades para compreender textos mais complexos e realizar inferências.
Não se trata de inteligência, muito menos de escolaridade. Trata-se da capacidade de interpretar informações, estabelecer relações, identificar incoerências e construir uma análise crítica antes de tomar decisões.
Em uma sociedade hiperconectada e inundada por informações, essa competência tornou-se ainda mais decisiva.
Despertar essa competência na experiência das pessoas colaboradoras tornou-se uma função indispensável da liderança humana. Essa capacidade é fundamental para que as pessoas entreguem resultados mantendo uma experiência saudável em uma organização com a qual se conectam e sentem pertencer.
E essa mesma competência é essencial para o exercício da cidadania.
As organizações não formam apenas profissionais. Contribuem, todos os dias, para o desenvolvimento de pessoas que exercem sua cidadania dentro e fora do trabalho. Antes de serem colaboradoras, elas são cidadãs e cidadãos que precisam fazer escolhas conscientes sobre a sociedade que desejam construir.
O próximo passo
Se defender uma maior representatividade de mulheres não significa votar automaticamente em qualquer mulher… Como podemos construir critérios mais conscientes para escolher mais representantes mulheres que realmente defendam os valores que consideramos importantes para a igualdade de gênero e, assim, ampliar de forma consciente nossa representatividade nos espaços de decisão?
É justamente sobre isso que quero conversar no próximo artigo.
Vamos explorar quais informações observar antes de escolher nossas representantes: como analisar trajetórias, votações, posicionamentos e a coerência entre discurso e prática. Afinal, fortalecer a democracia também exige fortalecer nossa capacidade de fazer escolhas conscientes.
Vamos seguir essa conversa?
Nos artigos anteriores, falamos sobre pertencimento, protagonismo, diálogo e coerência. Participar da democracia e liderar organizações exige, como consequência natural, a análise crítica. Escolher representantes — seja na política ou na cultura empresarial — é uma das formas mais concretas de transformar nossos valores em ação.
E você? Quando pensa em representatividade, costuma observar apenas a identidade da pessoa ou também procura compreender sua trajetória, suas escolhas e os valores que orientam sua atuação?
Se essa reflexão faz sentido para você ou para sua organização, este é um dos temas que trabalhamos em desenvolvimento de liderança humana, gestão de cultura organizacional, experiência das pessoas colaboradoras, coaching e mentoria.
Afinal, não deixamos nossa cidadania do lado de fora quando entramos para trabalhar. Somos a mesma pessoa na organização e na sociedade.
Vera Regina Meinhard é especialista em gestão de cultura e desenvolvimento de liderança humana. Formada em Administração pela FGV EAESP e Mestra em Sustentabilidade, fundou a Meinhard Connecting Voices em 2013, após 25 anos no Groupe Renault. Seu propósito é conectar pessoas e promover a integração consciente dos atributos do feminino e do masculino como base para organizações com ambientes mais saudáveis e resultados sustentáveis. É conselheira do IBESG, membra da GVAngels e idealizadora do Comitê Alumni FGVnianas na Liderança. Vera acredita que avanços começam pela escuta presente e pela ação de valores. É mãe e valoriza a promoção de uma sociedade que integre a igualdade de gênero.