Cultura organizacional: as escolhas que revelam nossos valores

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Cultura organizacional: as escolhas que revelam nossos valores

Cultura organizacional: as escolhas que revelam nossos valores

Nossas escolhas revelam os valores que realmente orientam nossas ações, muito mais do que os valores que declaramos defender.

Existe uma pergunta que precisamos fazer com mais frequência a nós mesmas e a nós mesmos: nossas escolhas realmente refletem os valores que dizemos defender?

Essa pergunta parece simples, mas ela atravessa praticamente todas as dimensões da nossa vida. É ela que deveria orientar nossas decisões com respeito às organizações nas quais escolhemos permanecer ou deixar. Nosso olhar de admiração deveria se direcionar para líderes que defendem os mesmos valores.

Na nossa vida pessoal, nossos valores deveriam ter coerência entre o discurso que adotamos e o exemplo que damos às nossas filhas e filhos por meio dos comportamentos que praticamos. Essas escolhas aparecem em situações muito diferentes do cotidiano.

E o nosso consumo? Os produtos que consumimos espelham nosso discurso? Quando compro uma roupa, comida ou bebida, verifico se a empresa está na lista das que utilizam mão de obra análoga à escravidão?

E quando escolhemos quem nos representa politicamente, essas pessoas defendem nossos valores?

Quando decidimos permanecer em silêncio diante de situações que contrariam aquilo em que acreditamos, estamos, de alguma forma, ferindo nossos valores. Em muitas situações, o silêncio também comunica uma escolha e pode revelar os valores que decidimos priorizar naquele contexto.

Nos três primeiros artigos desta série, refletimos sobre pertencimento, protagonismo e diálogo. Talvez exista um quarto elemento sem o qual nenhum dos anteriores se sustenta: a coerência. Podemos chamar também de integridade consigo.

Afinal, toda escolha revela os valores que realmente nos orientam, independentemente de esses valores serem admirados ou criticados por outras pessoas.

Coerência também produz bem-estar

Existe uma razão pela qual algumas decisões continuam nos trazendo paz, mesmo quando foram difíceis. E existe outra razão pela qual determinadas escolhas permanecem nos incomodando durante muito tempo, ainda que tenham produzido bons resultados — aquelas que tiram o sono.

Nem sempre esse desconforto nasce do medo das consequências da decisão. Muitas vezes, ele surge quando nossas atitudes deixam de dialogar com os valores que sustentamos genuinamente, que realmente fazem parte da nossa identidade.

Agir de forma coerente não significa estar certo ou errado. Quando falamos de integridade, significa reconhecer que nossas escolhas caminham na mesma direção dos valores que dão sentido à nossa vida.

Essa coerência fortalece nossa identidade, amplia o sentimento de pertencimento e reduz o desgaste emocional provocado por viver tentando justificar decisões que, no fundo, sabemos não representar quem desejamos ser — este ser que vamos amar, aceitar e acreditar que é digno de amor e que pode, assim, pertencer.

Atribuem a Gandhi a reflexão que diz: somos felizes quando o que pensamos, dizemos e fazemos estão em harmonia. Eu acrescentaria também o que sentimos, pois, para mim, aí está a mais profunda revelação dos nossos valores.

Cultura organizacional também revela coerência

A mesma lógica individual aparece nas organizações. Uma empresa pode afirmar que coloca as pessoas no centro, mas suas decisões revelarem outra prioridade. Pode defender a inovação, mas punir qualquer tentativa de experimentar algo novo. Pode afirmar que acredita em igualdade de oportunidades, mas continuar promovendo sempre os mesmos perfis.

Cultura organizacional nunca é construída pelos discursos; ela se revela nas escolhas. É por isso que a confiança depende tanto da coerência. Quando existe distância entre aquilo que uma organização comunica e aquilo que pratica, as pessoas deixam de acreditar. E o pertencimento dificilmente floresce onde a confiança desaparece.

Nosso “eu” precisa se conhecer com profundidade para navegar no mundo assegurando a coerência entre os valores que defende e seus comportamentos. É esse autoconhecimento que nos permite ter coerência nas escolhas das organizações com as quais nos relacionamos. Vivemos felizes quando conseguimos vivenciar essa coerência nas relações.

Tanto no âmbito pessoal quanto no profissional, existe a necessidade do diálogo para conviver com as diferenças, bem como um espaço para escolher os grupos de afinidade com os quais convivemos de forma genuinamente emocional, sentindo-nos parte.

Liderança humana: quando admiramos resultados e ignoramos comportamentos

Recentemente assisti ao filme O Diabo Veste Prada 2. Uma das cenas me chamou a atenção. Andrea Sachs faz um discurso emocionante ao receber um prêmio, defendendo a importância da dignidade das pessoas no ambiente de trabalho. Ao mesmo tempo, escolhe retornar para trabalhar ao lado de Miranda Priestly, uma liderança cuja forma de tratar as pessoas permanece marcada pela arrogância, pelo desrespeito e pela utilização do poder como instrumento de intimidação.

Independentemente das razões da personagem, essa contradição — revelada pelo olhar que Andrea direciona a Miranda no final — me fez pensar: quantas vezes admiramos pessoas que se comportam de forma oposta aos nossos valores? O que isso revela sobre nosso autoconhecimento e sobre os critérios que utilizamos para escolher quem admiramos? O que nos leva a endeusar uma pessoa que claramente não nos representa?

Não me interessa debater se os valores da Andrea ou da Miranda são melhores. O que me chama a atenção é a distância entre o discurso e as escolhas da Andrea. Afinal, valores diferentes podem conviver em uma sociedade democrática. O desafio começa quando deixamos de agir de acordo com aquilo que afirmamos defender.

Cultura da Democracia: cidadania também revela nossos valores

Essa reflexão não termina nas organizações que frequentamos na vida profissional. Ela continua na família, na vida social e quando exercemos nossa cidadania.

Costumamos dedicar bastante atenção à escolha de quem ocupará o Poder Executivo, mas muitas vezes conhecemos pouco sobre quem disputa vagas no Congresso Nacional — na Câmara dos Deputados e no Senado. No entanto, são justamente deputadas, deputados, senadoras e senadores que discutem, revisam e aprovam leis capazes de impactar profundamente o nosso cotidiano.

Eles e elas atuam de forma semelhante à média liderança que, quase na invisibilidade do dia a dia, faz o meio de campo e assegura cotidianamente a experiência das pessoas colaboradoras nas empresas. No legislativo, eles e elas decidem sobre temas essenciais: igualdade de gênero, governança da inteligência artificial, educação das crianças, modelos de trabalho, saúde e direitos fundamentais.

Estamos votando por coerência com nossos valores? Ou fazendo como a Andrea Sachs e endeusando figuras sem nem saber o porquê?

Se queremos organizações e uma sociedade que nos representem, precisamos compreender como as decisões públicas influenciam os ambientes nos quais vivemos e trabalhamos.

Representatividade e igualdade de gênero também exigem coerência

Quando falamos sobre representatividade, não estamos falando apenas de números. Estamos falando sobre ampliar as perspectivas presentes nos espaços de decisão; sobre o real poder de expressar necessidades e lutar por elas.

O Brasil é formado por uma sociedade diversa. No entanto, essa diversidade ainda não está plenamente refletida nos espaços onde as decisões são tomadas. A presença de mais mulheres, assim como de outros grupos historicamente sub-representados, amplia a possibilidade de que diferentes experiências participem da construção de soluções coletivas.

Quando discutimos igualdade de gênero, por exemplo, não estamos apenas debatendo a presença física de mais mulheres. Estamos discutindo quais vivências estarão presentes quando forem tomadas decisões sobre trabalho, saúde, educação e tecnologia. Além da representatividade numérica, precisamos garantir que essa presença se traduza em influência real.

Da mesma forma que a coerência de valores fortalece a cultura organizacional, escolher representantes de forma alinhada à nossa visão de mundo fortalece a democracia. Escolher significa participar com atitude protagonista e diálogo ao longo da jornada. Assim como a tecnologia evolui, os seres humanos também se transformam. Por isso, da mesma forma que escolho ficar ou sair de uma organização em função da sua evolução, preciso acompanhar quem elegi para assegurar que a coerência se mantém.

Escolhas conscientes fortalecem cultura organizacional e democracia

A análise crítica é uma competência essencial que enriquece a experiência das pessoas colaboradoras, e a liderança humana precisa ser excelente em estimulá-la. É ela que nos permite escolher de forma integral tanto os espaços de trabalho quanto a nossa atuação na democracia.

O mais importante não é o que as pessoas prometem, mas sim as decisões que tomam diariamente. Existe coerência entre o discurso e a trajetória? Como tratam as pessoas quando exercem o poder? Como reagem diante de opiniões diferentes? Que valores suas escolhas revelam?

Essas perguntas valem para lideranças organizacionais, para representantes públicos e para cada pessoa com a qual convivemos. E, claro, valem em primeiro lugar para a nossa autoavaliação contínua, que é o que garante a nossa sustentabilidade emocional.

Quando existe coerência entre aquilo que pensamos, sentimos, dizemos e fazemos, diminuímos os conflitos internos. Essa integração fortalece nossa identidade e amplia a sensação de viver uma vida autêntica. Talvez seja por isso que a coerência seja uma das maiores fontes de bem-estar.

Vamos seguir essa conversa?

Nos três primeiros artigos desta série, percorremos um caminho onde o pertencimento nos convida a participar. Essa participação nos convida a assumir o protagonismo e o diálogo para ampliar nossa capacidade de compreender, para finalmente falarmos da importância da coerência para assegurar nossa integridade e felicidade.

Porque pertencimento sem participação se torna dependência. Participação sem responsabilidade perde o sentido. Diálogo sem escuta transforma-se em disputa. E valores sem coerência tornam-se apenas discurso e afetam o bem-estar.

E você? As escolhas que faz — nas organizações, na vida e na cidadania — revelam os valores que você acredita defender? As pessoas que você admira possuem valores que se conectam com os seus?

Se essa reflexão faz sentido para você ou para sua organização, esse é um dos temas que trabalhamos em desenvolvimento de liderança humana, gestão de cultura organizacional, experiência das pessoas colaboradoras, coaching e mentoria.

Vera Regina Meinhard é especialista em gestão de cultura e desenvolvimento de liderança humana. Formada em Administração pela FGV EAESP e Mestra em Sustentabilidade, fundou a Meinhard Connecting Voices em 2013, após 25 anos no Groupe Renault. Seu propósito é conectar pessoas e promover a integração consciente dos atributos do feminino e do masculino como base para organizações com ambientes mais saudáveis e resultados sustentáveis. É conselheira do IBESG, membra da GVAngels e idealizadora do Comitê Alumni FGVnianas na Liderança. Vera acredita que avanços começam pela escuta presente e pela ação de valores. É mãe e valoriza a promoção de uma sociedade que integre a igualdade de gênero.

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