Pertencimento e cultura organizacional: o impacto na experiência das pessoas colaboradoras
Cultura organizacional e pertencimento começam pelas pessoas
Você já percebeu como sua forma de se envolver muda quando se sente verdadeiramente parte de algo?
Pode ser uma organização, uma equipe, um projeto, uma associação ou uma causa. Quando nos sentimos pertencentes, participamos de forma diferente.
No entanto, apesar de falarmos cada vez mais sobre engajamento e comprometimento nas organizações, ainda tratamos esses conceitos como se estivessem restritos à vida profissional.
Eu penso diferente.
Somos seres integrais. Não deixamos nossos valores, sonhos, crenças, frustrações e visão de mundo do lado de fora quando entramos em uma organização. Da mesma forma, não deixamos de ser pessoas colaboradoras, líderes ou cidadãs quando encerramos nossa jornada de trabalho.
Por isso, a forma como nos relacionamos com as organizações tem muito em comum com a forma como nos relacionamos com a sociedade.
Quando falamos sobre comprometimento, não estamos falando apenas da capacidade de entregar resultados. Estamos falando da disposição de participar da construção de algo que consideramos importante.
E isso vale tanto para a empresa em que trabalhamos quanto para a cidade onde vivemos, os grupos dos quais fazemos parte ou a sociedade que ajudamos a construir todos os dias. Talvez por isso uma pergunta me acompanhe há bastante tempo:
Como você avalia sua atuação nesses diferentes espaços?
Quais comportamentos se repetem entre sua vida profissional e sua vida como cidadã?
Construir pertencimento também faz parte da experiência das pessoas colaboradoras
Quando falamos sobre pertencimento na perspectiva da subjetividade, estamos nos referindo à necessidade humana de sentir que nossa identidade, nossa história, nossas ideias e nossas contribuições têm espaço e valor. Pertencer é sentir que podemos existir em um ambiente sem precisar esconder partes importantes de quem somos.
E existe um aspecto dessa discussão que costuma receber menos atenção.
Frequentemente falamos sobre pertencimento como uma responsabilidade exclusiva das organizações, das lideranças ou das instituições. Como se bastasse criar políticas, programas ou iniciativas para que as pessoas automaticamente se sentissem parte.
Essas ações são importantes. No entanto, pertencimento não nasce apenas do que recebemos. Pertencimento também exige participação.
É difícil sentir-se parte de algo que observamos apenas à distância. Torna-se ainda mais desafiador desenvolver conexão com um ambiente no qual escolhemos permanecer apenas como pessoas espectadoras, apenas julgando quem participa.
Por isso, comprometimento e pertencimento caminham em conjunto.
Quanto mais nos sentimos parte, maior tende a ser nossa disposição para contribuir. E quanto mais contribuímos, mais fortalecemos nossa sensação de pertencimento. É uma relação viva.
Liderança humana e protagonismo consciente
Essa reflexão me remete frequentemente às ideias de Fred Kofman no livro La Empresa Consciente.
Uma das contribuições mais importantes dessa obra, para mim, é a compreensão de que protagonismo não significa controlar tudo o que acontece ao nosso redor. Significa agir com consciência.
Significa desenvolver a capacidade de distinguir aquilo que pertence ao contexto daquilo que está sob nossa responsabilidade.
Quando fazemos essa distinção, deixamos de concentrar nossa energia apenas naquilo que não administramos e passamos a agir sobre aquilo que efetivamente podemos influenciar.
Isso muda nossa relação com os desafios, com os conflitos e também com as frustrações.
Aprendi com essa visão que liberdade não é ausência de obstáculos.
Liberdade é a capacidade de reconhecer a realidade como ela é, administrar as emoções que ela desperta e, ainda assim, construir caminhos possíveis em direção ao lugar onde queremos chegar.
Gestão de cultura organizacional é responsabilidade compartilhada
Essa reflexão tem impacto direto na gestão de cultura organizacional.
É verdade que lideranças possuem uma responsabilidade fundamental na construção de ambientes saudáveis. Liderança humana significa criar condições para que as pessoas se sintam respeitadas, valorizadas e incluídas. Significa promover segurança psicológica, combater vieses inconscientes, estimular o diálogo e reconhecer contribuições.
Mas a cultura não é construída apenas por quem ocupa posições de liderança. Ela é construída por todas as pessoas que participam daquele ambiente. Todos os dias.
Nas conversas que escolhemos ter. Nos conflitos que escolhemos enfrentar ou evitar. Nas ideias que compartilhamos. Nas iniciativas que assumimos. Na forma como acolhemos diferenças e construímos relações.
Por isso, sempre me pergunto qual é a nossa responsabilidade individual quando falamos sobre cultura.
Porque existe uma diferença importante entre reconhecer dificuldades reais e permanecer aprisionada à indignação.
Reclamar pode aliviar momentaneamente a tensão emocional. Mas dificilmente transforma a realidade. Transformação exige participação.
E essa lógica não vale apenas para as organizações. Ela aparece em qualquer ambiente do qual escolhemos fazer parte.
Pertencer também significa assumir responsabilidade
Claro que existem situações em que os valores da organização deixam de dialogar com aquilo que acreditamos. Existem contextos em que permanecer deixa de ser saudável.
Nesses casos, buscar novos espaços pode ser uma atitude profundamente protagonista. Porque pertencimento não é permanência. Pertencimento é coerência.
É a possibilidade de contribuir para ambientes que dialogam minimamente com os valores que sustentamos. Quando essa coerência desaparece, talvez seja hora de construir novos caminhos.
Mas enquanto escolhemos permanecer, também participamos da construção da cultura que vivemos.
A pergunta deixa de ser apenas “o que a organização faz comigo?” e passa a incluir “como estou influenciando o ambiente do qual faço parte?”.
Pertencimento, saúde emocional e cidadania
O pertencimento está profundamente ligado à saúde emocional.
Ambientes nos quais nos sentimos uma pessoa respeitada, ouvida e valorizada tendem a favorecer bem-estar, confiança e segurança. Isso é verdade para a experiência das pessoas colaboradoras. E também é verdade para a vida em sociedade.
Quando nos sentimos parte de algo, tendemos a cuidar mais desse espaço. Tendemos a nos envolver mais. Tendemos a assumir maior responsabilidade pelos resultados coletivos.
Talvez seja justamente por isso que pertencimento e cidadania estejam tão conectados. Porque cidadania também não é algo passivo.
Ela exige participação. Ela exige interesse. Ela exige disposição para contribuir com a construção da realidade que queremos viver.
E é justamente essa relação entre pertencimento, participação e responsabilidade coletiva que quero aprofundar nos próximos artigos desta série do mês de julho e agosto.
Vamos seguir essa conversa?
O comprometimento saudável, seja nas organizações ou na sociedade, não nasce da obrigação. Ele nasce da combinação entre pertencimento, participação e responsabilidade.
Por isso, talvez a pergunta mais importante deste artigo seja simples:
Como você tem contribuído para construir os ambientes dos quais escolheu fazer parte?
Nos próximos textos quero aprofundar a relação entre pertencimento, cidadania, representatividade e responsabilidade coletiva.
Afinal, a forma como participamos das organizações tem muito a nos ensinar sobre a forma como participamos da sociedade.
Se essa reflexão faz sentido para você ou para sua organização, esse é um dos temas que trabalhamos em desenvolvimento de liderança humana, gestão de cultura organizacional, experiência das pessoas colaboradoras, coaching e mentoria.
Pertencimento não nasce do discurso. Ele é construído na qualidade das relações, na coerência entre valores e atitudes e nas escolhas que fazemos todos os dias.
Vera Regina Meinhard é especialista em gestão de cultura e desenvolvimento de liderança humana. Formada em Administração pela FGV EAESP e Mestra em Sustentabilidade, fundou a Meinhard Connecting Voices em 2013, após 25 anos no Groupe Renault. Seu propósito é conectar pessoas e promover a integração consciente dos atributos do feminino e do masculino como base para organizações com ambientes mais saudáveis e resultados sustentáveis. É conselheira do IBESG, membra da GVAngels e idealizadora do Comitê Alumni FGVnianas na Liderança. Vera acredita que avanços começam pela escuta presente e pela ação de valores. É mãe e valoriza a promoção de uma sociedade que integre a igualdade de gênero.