Quem somos além dos papéis que desempenhamos?
No ambiente profissional e na vida pessoal, aprendemos a nos definir por nossos cargos, profissões e papéis sociais. Mas essas referências contam toda a história de quem somos?
Essa foi uma das reflexões que exploramos no workshop “Quem disse? Marca pessoal, identidade e as questões de gênero que aprendemos”, que conduzimos durante a Alumni Week do Alumni FGV EAESP.
Partindo da relação entre identidade e marca pessoal, refletimos sobre como nossos valores, paixões, sonhos e outras dimensões de quem somos vão muito além dos papéis que desempenhamos. Também exploramos como a educação binária e as construções sociais de gênero influenciam os comportamentos que nos permitimos expressar e a forma como somos percebidos.
A partir dessas reflexões, surgiu uma questão: quanto da nossa maneira de ser e de nos expressar resulta de escolhas próprias e quanto é influenciado pelo que aprendemos que deveríamos ser?
Identidade e marca pessoal
Nossa identidade vai muito além dos papéis sociais que desempenhamos na profissão e nas relações familiares. Quando nos apresentamos para além dessas referências, abrimos espaço para revelar nossos valores, paixões, sonhos e outras dimensões que também nos definem.
Essa reflexão nos convida a olhar para a marca pessoal não apenas como a forma como queremos ser percebidos, mas também como uma expressão consciente de quem somos e da nossa identidade — daquilo que escolhemos tornar visível ao mundo.
As lentes de gênero que moldam nossas escolhas
Mas será que nos tornamos livres para expressar todas as dimensões da nossa identidade?
A educação binária e as construções sociais de gênero influenciam o que aprendemos ser adequado para mulheres e homens. Historicamente, atributos femininos foram associados às mulheres e atributos masculinos, aos homens. Essa separação contribuiu não apenas para definir papéis sociais, mas também para hierarquizar competências humanas e estabelecer expectativas diferentes de comportamento.
Os exemplos aparecem no cotidiano: quando uma mulher é firme, pode ser considerada brava; quando um homem demonstra cuidado, pode ter sua firmeza questionada.
Não é apenas o comportamento que está em julgamento. É também quem o expressa.
Os medos invisíveis que limitam nossas escolhas
As expectativas sociais não influenciam apenas a forma como somos percebidos. Elas também podem afetar a maneira como nos percebemos e os comportamentos que nos permitimos expressar.
O medo de sermos julgados, de não correspondermos ao que esperam de nós ou de sermos rejeitados pode nos levar a esconder características, conter opiniões e deixar de explorar capacidades que também fazem parte de quem somos.
Quando não reconhecemos esses medos, podemos acabar reproduzindo, consciente ou inconscientemente, as mesmas regras que nos limitam.
Tornar esses medos visíveis é um passo importante para questionarmos as crenças que os alimentam e ampliarmos nossa liberdade de escolha. Não controlamos todas as expectativas sociais nem a forma como os outros nos percebem, mas podemos desenvolver consciência sobre o que nos condiciona e decidir como queremos nos expressar.
Ser livre não significa ignorar essas influências, mas poder escolher, cada vez mais conscientemente, quem queremos ser e quais dimensões da nossa identidade queremos tornar visíveis ao mundo.
Ampliar nosso repertório para além das expectativas
Reconhecer essas influências é um passo importante para fazermos escolhas mais conscientes sobre como queremos nos expressar, nos relacionar e contribuir.
Integrar atributos femininos, historicamente associados às mulheres, e atributos masculinos, tradicionalmente associados aos homens, amplia nosso repertório humano e nossas possibilidades de agir e liderar.
Não se trata de substituir um conjunto de atributos por outro, mas de reconhecer o valor de ambos e superar as limitações impostas pelas expectativas de gênero.
A construção de uma marca pessoal coerente com quem somos também passa por essa reflexão: quais dimensões de nós mesmos temos deixado de expressar para corresponder ao que esperam?
Da identidade à marca pessoal: o que você quer tornar visível ao mundo?
Agradeço à Fabiana Santana pela parceria e pela riqueza das reflexões que construímos juntas, e ao Alumni FGV EAESP pelo espaço para essa conversa durante a Alumni Week.
E você? Já deixou de expressar alguma característica sua por receio de não corresponder ao que esperavam de você? O que gostaria de se permitir expressar mais, para além dos papéis que aprendeu a desempenhar?
Compartilhe sua reflexão nos comentários.
E, se você sente que ainda precisa compreender melhor sua identidade para desenvolver uma marca pessoal coerente com quem você é, entre em contato. Esse processo de autoconhecimento é um passo importante para reconhecer o que você quer tornar visível ao mundo e como deseja se posicionar.
Vera Regina Meinhard é especialista em gestão de cultura e desenvolvimento de liderança humana. Formada em Administração pela FGV EAESP e Mestra em Sustentabilidade, fundou a Meinhard Connecting Voices em 2013, após 25 anos no Groupe Renault. Seu propósito é conectar pessoas e promover a integração consciente dos atributos do feminino e do masculino como base para organizações com ambientes mais saudáveis e resultados sustentáveis. É conselheira do IBESG, Conselheira da GVAngels e idealizadora do Comitê Alumni FGVnianas na Liderança. Vera acredita que avanços começam pela escuta presente e pela ação de valores. É mãe e valoriza a promoção de uma sociedade que integre a igualdade de gênero.