Igualdade de gênero e cultura organizacional: o que a política pode ensinar sobre escolhas conscientes – estudo de caso: Senado

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Igualdade de gênero e cultura organizacional: o que a política pode ensinar sobre escolhas conscientes - estudo de caso: Senado

Igualdade de gênero e cultura organizacional: o que a política pode ensinar sobre escolhas conscientes – estudo de caso: Senado

Ao longo desta série tenho defendido uma ideia simples: escolhas conscientes começam antes da decisão. Elas nascem quando aprendemos a observar fatos, distinguir discurso de trajetória e desenvolver critérios próprios de análise. Esse exercício vale para a vida profissional, para as organizações e também para a cidadania.

Neste artigo proponho aplicar esses princípios a um estudo de caso. Em vez de discutir em quem votar, o objetivo é mostrar como analisar candidaturas com base em informações públicas e verificáveis, sob a perspectiva da igualdade de gênero e da representatividade.

Em 2026, serão renovadas 54 das 81 cadeiras do Senado Federal. Em cada estado serão eleitas duas pessoas para um mandato de oito anos. A forma como escolhemos essas representações influencia diretamente a elaboração das leis, as políticas públicas e as prioridades que orientam o país.

Nossas escolhas para o Senado ganham dimensão quando olhamos para o papel de cada Poder:

  • Executivo: Administra o país e implementa políticas públicas.
  • Judiciário: Garante o respeito à Constituição e resolve conflitos.
  • Legislativo (onde está o Senado): Representa a população, cria leis e fiscaliza o Executivo (por exemplo, aprova e controla o Orçamento).

Além de criar leis, o Senado aprova autoridades em cargos estratégicos, autoriza operações financeiras e julga processos constitucionais. Por isso, tomar uma decisão consciente para um mandato de oito anos é definir os rumos da nossa sociedade.

Nossas escolhas também influenciam a representatividade das mulheres. Desenvolver uma cultura em que a representatividade nos espaços de decisão reflita a diversidade da população é um passo importante para construir uma sociedade mais representativa. Como minha atuação é voltada à igualdade de gênero, este estudo utiliza as candidaturas de mulheres ao Senado como estudo de caso.

Hoje, as mulheres representam 52% da população brasileira, mas ocupam apenas 16 das 81 cadeiras do Senado, menos de 20%.

Como cada estado elegerá duas pessoas para o Senado, cada eleitor e eleitora poderá votar em duas candidaturas. Vale lembrar que votar duas vezes na mesma candidatura anula um dos votos, sem aumentar suas chances de eleição.

Espero um Senado composto por pessoas conscientes da responsabilidade que exercem na construção do país, capazes de debater ideias, fiscalizar os demais Poderes e legislar tendo como prioridade o interesse público e a vida da população brasileira, hoje e no futuro.

E você? O que espera das pessoas que representarão seu estado no Senado pelos próximos oito anos?

Quais são as candidatas ao Senado por São Paulo?

Como o processo eleitoral ainda está em andamento, este estudo considera as informações públicas disponíveis em 12 de agosto de 2026. Embora as convenções partidárias já tenham definido as candidaturas, alguns pedidos de registro ainda aguardam análise da Justiça Eleitoral. Até a homologação definitiva, candidaturas, partidos, federações e coligações ainda poderão sofrer alterações.

Até esta data, dez candidaturas disputam as duas vagas ao Senado por São Paulo. Destas, apenas três são de mulheres, evidenciando que a desigualdade de gênero permanece presente não apenas na composição atual do Senado, mas também na oferta de candidaturas.

Ampliar a presença de mulheres nos espaços de decisão também produz um importante efeito cultural. Quanto mais mulheres ocupam posições de liderança no Legislativo, no Executivo, no Judiciário, nas empresas e em outras instituições, mais meninas e mulheres passam a enxergar esses espaços como possibilidades reais para suas próprias trajetórias.

A representatividade amplia referências, contribui para desconstruir estereótipos e síndromes, como a da patinha feia e a da impostora, e fortalece a confiança para que mais mulheres se candidatem, liderem e participem das decisões que moldam a sociedade.

Aplica-se a seguir os seis critérios de análise apresentados no artigo anterior às candidaturas de mulheres ao Senado por São Paulo, utilizando exclusivamente informações públicas e verificáveis. (Nos próximos artigos, aplicarei os mesmos critérios às candidaturas para a Câmara dos Deputados e Deputadas e para a ALESP).

A tabela a seguir apresenta as candidaturas que serão analisadas.

Igualdade de gênero e cultura organizacional: o que a política pode ensinar sobre escolhas conscientes - estudo de caso: Senado

Antes de iniciar a análise, vale retomar os seis critérios apresentados no artigo anterior. Eles serão aplicados igualmente às três candidatas, utilizando exclusivamente informações públicas e verificáveis.

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HISTÓRICO da TRAJETÓRIA POLÍTICA

O primeiro critério de análise busca compreender o percurso de cada candidata antes e durante a vida pública. Formação, experiência profissional e atuação na administração pública não permitem, por si sós, concluir como será um mandato, mas ajudam a entender o contexto em que essa trajetória foi construída e as experiências que podem influenciar sua atuação no Senado.

Além dessas informações, a tabela reúne dados objetivos sobre cada candidatura, como partido, federação ou aliança partidária e situação do registro eleitoral. Também apresenta as pessoas indicadas para a 1ª e a 2ª suplência.

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As informações apresentadas mostram que as três candidatas percorreram trajetórias distintas até chegar à disputa pelo Senado. Marina Silva iniciou sua atuação pública a partir do movimento socioambiental, Simone Tebet construiu sua experiência em diferentes funções nos Poderes Executivo e Legislativo, enquanto Rosana Valle ingressou na política após uma carreira consolidada no jornalismo. Essas diferenças não permitem concluir qual trajetória é superior, mas oferecem elementos importantes para compreender os diferentes repertórios, experiências e perspectivas que cada candidatura traz para a disputa eleitoral e, sobretudo, para sua atuação no Senado.

Conhecer as pessoas indicadas para a suplência é fundamental, pois não é raro que senadores e senadoras sejam convidadas a assumir ministérios ou outros cargos no Poder Executivo. Nesses casos, quem passa a exercer o mandato é a pessoa eleita para a suplência — o mesmo acontece nas demais situações previstas na legislação, como licença, renúncia, cassação ou falecimento da pessoa titular

Nas candidaturas em que os nomes já foram divulgados, tanto a primeira quanto a segunda suplência é ocupada por homens. Isso evidencia que a sub-representação de mulheres se manifesta também nos espaços de bastidor e sucessão, reforçando a importância de olhar a chapa como um todo.

ATUAÇÃO INSTITUCIONAL

O segundo critério observa como cada candidata atuou na formulação de projetos de lei, políticas públicas e iniciativas ligadas à igualdade de gênero e à representatividade das mulheres.

Vale destacar que a existência ou ausência de projetos de lei específicos não determina, isoladamente, o compromisso de uma candidatura. Em diferentes funções públicas, a promoção da igualdade de gênero pode ocorrer por meio da elaboração de políticas públicas, programas, ações administrativas, articulação institucional ou participação em processos decisórios.

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A análise evidencia diferentes caminhos institucionais: Simone Tebet reúne projetos de lei focados no tema; Marina Silva concentrou sua atuação na criação de diretrizes e políticas no Executivo; e Rosana Valle atuou principalmente em comissões temáticas e projetos parlamentares regionais.

Essas diferenças refletem os cargos ocupados por cada candidata ao longo de sua trajetória. Por isso, mais do que comparar volumes, este critério procura compreender como cada atuação contribuiu, em seu contexto, para a construção de políticas, iniciativas e resultados relacionados ao tema.

VOTAÇÕES

Inicialmente, este estudo previa incluir o critério de votações das candidatas em matérias relacionadas à igualdade de gênero e à representatividade das mulheres.

Para isso, foi realizado um levantamento da legislação federal produzida entre 2000 e 2026 sobre direitos das mulheres, participação política e enfrentamento à violência. A lista a seguir reúne as principais leis e proposições que marcaram esse período.

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Embora o levantamento revele avanços legislativos importantes, o critério “votações” não permitiu uma comparação metodologicamente justa. A aprovação de muitas matérias ocorreu por votação simbólica (sem registro individual) ou em momentos nos quais as candidatas ocupavam cargos no Executivo ou não exerciam mandato.

Por isso, o estudo concentrou-se nos demais critérios, construídos sobre dados individuais, comparáveis e baseados em informações públicas e verificáveis.

POSICIONAMENTOS PÚBLICOS

Este critério busca compreender quais temas cada candidata defende publicamente e como esses posicionamentos dialogam com sua trajetória e atuação institucional. Mais do que identificar opiniões pontuais ou declarações de campanha, consideramos manifestações recorrentes ao longo da vida pública, permitindo compreender as reais prioridades políticas que orientam cada candidatura.

Como o foco desta série é a igualdade de gênero e a representatividade, esse tema recebe atenção especial. Entretanto, também foram considerados outros assuntos fundamentais para o exercício do mandato, uma vez que o Senado delibera sobre temas econômicos, sociais, ambientais, institucionais e de desenvolvimento nacional.

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Os dados revelam três prioridades e campos de atuação distintos: a projeção temática e socioambiental de Marina Silva, a articulação institucional, fiscal e democrática de Simone Tebet, e a pauta de desenvolvimento regional e segurança de Rosana Valle. Cabe à pessoa eleitora avaliar qual desses perfis responde melhor aos desafios do Senado nos próximos oito anos.

Essas diferenças não representam, por si só, vantagens ou limitações, mas revelam experiências, prioridades e campos de atuação distintos. No caso de Rosana Valle, uma eventual atuação no Senado poderá exigir a ampliação desse olhar regional para temas nacionais e internacionais que fazem parte das competências da Casa, como política econômica, relações exteriores, defesa nacional, mudanças climáticas, inovação, inteligência artificial e o pacto federativo. A capacidade de transitar entre essas diferentes agendas será um dos desafios próprios do exercício do mandato.

LIDERANÇA

Nesse critério de análise busca identificar evidências da forma como cada candidata exerce liderança ao longo de sua trajetória pública. Para isso, foram considerados três aspectos: a capacidade de diálogo, a construção de consensos e o enfrentamento dos desafios contemporâneos. Esses elementos permitem compreender como cada candidata mobiliza pessoas, articula diferentes perspectivas e contribui para a construção de soluções em temas relevantes para a sociedade.

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A análise evidencia estilos de liderança distintos.

  • Marina Silva construiu uma liderança reconhecida nacional e internacionalmente, voltada principalmente às agendas ambiental, climática e de desenvolvimento sustentável.
  • Simone Tebet apresenta uma atuação marcada pela articulação institucional, pela construção de consensos e pela circulação em diferentes níveis da administração pública, combinando experiência no Executivo e no Legislativo.
  • Rosana Valle desenvolveu sua liderança principalmente na representação parlamentar e regional, com foco nas demandas da Baixada Santista e do Vale do Ribeira.

Essas diferenças refletem as trajetórias de cada candidata e não estabelecem, por si só, uma hierarquia de liderança. Entretanto, o exercício do mandato no Senado exige capacidade de dialogar com múltiplos setores da sociedade, construir consensos e atuar sobre temas de impacto nacional e internacional. Cabe a cada eleitor e eleitora avaliar em que medida as evidências apresentadas ao longo da trajetória de cada candidata demonstram essas competências.

COERÊNCIA

O último critério de análise busca verificar o alinhamento entre o discurso público e a prática de cada candidata. Mais do que avaliar opiniões ou propostas, este critério procura identificar se as posições defendidas publicamente encontram correspondência nas decisões, iniciativas e ações desenvolvidas ao longo da trajetória pública.

A coerência não significa permanecer sempre com a mesma opinião. Mudanças de posicionamento podem fazer parte do amadurecimento político e da evolução da sociedade. O que este critério observa é se essas mudanças são transparentes, justificadas e compatíveis com a atuação da candidata ao longo do tempo.

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A análise realizada identificou evidências de alinhamento entre discurso e prática nas três candidatas em relação aos temas analisados neste estudo, ainda que cada uma apresente prioridades distintas. Marina Silva mantém consistência entre sua atuação socioambiental, a justiça climática e a defesa da igualdade de gênero. Simone Tebet demonstra alinhamento entre o planejamento do Estado, a responsabilidade fiscal e a promoção de políticas públicas transversais para as mulheres. Rosana Valle apresenta coerência entre as pautas de desenvolvimento regional, infraestrutura, segurança pública e combate à violência contra as mulheres

E o papel dos partidos?

A filiação partidária e as alianças de cada candidatura fazem parte das informações objetivas apresentadas neste estudo. No entanto, não será realizada uma análise das posições ideológicas ou das pautas gerais de cada partido. Essa é uma escolha metodológica deliberada: partidos possuem diferentes programas, posições e alianças, e cada pessoa pode atribuir pesos distintos a esses elementos em sua decisão de voto.

Isso não significa, porém, que a posição dos partidos sobre a igualdade de gênero e a representatividade das mulheres não deva ser considerada. Ao contrário: para quem considera essas pautas relevantes, conhecer o posicionamento do partido é uma informação importante, inclusive porque a atuação de uma senadora ou de um senador acontece dentro de uma estrutura partidária e, em determinadas situações, a orientação partidária pode influenciar a posição de quem exerce o mandato em votações e decisões no Senado.

O objetivo deste estudo não foi indicar em quem votar, mas demonstrar que é possível analisar candidaturas por meio de critérios públicos e verificáveis. Quanto mais desenvolvemos essa capacidade de análise, mais fortalecemos escolhas conscientes, a cidadania e a democracia.

Vamos seguir essa conversa?

Aplicar critérios de análise não elimina diferenças de opinião nem substitui as convicções de cada pessoa, mas permite que nossas escolhas sejam menos influenciadas por impressões, discursos ou campanhas e mais fundamentadas em evidências.

Os critérios utilizados neste estudo não esgotam tudo o que pode ser analisado sobre uma candidatura, mas representam um conjunto mínimo de informações públicas que considero importante conhecer antes de decidir o voto. 

Foram suficientes para que eu formasse minha própria convicção sobre as candidaturas. Espero que também ajudem você a construir a sua, ainda que possamos chegar a conclusões diferentes.

Neste estudo de caso, vimos que candidatas comprometidas com a igualdade de gênero podem apresentar trajetórias, prioridades, estilos de liderança e experiências bastante diferentes. A representatividade continua sendo importante, mas ela não dispensa uma análise crítica sobre quem queremos ver ocupando os espaços de decisão.

Esse mesmo exercício de análise também faz parte da vida nas organizações. Escolhemos líderes, formamos equipes, promovemos pessoas, tomamos decisões que afetam a perenidade do negócio e construímos culturas organizacionais a partir dos critérios que adotamos, consciente ou inconscientemente.

Afinal, não deixamos nossa cidadania do lado de fora quando entramos para trabalhar. Somos a mesma pessoa na organização e na sociedade. Desenvolver essa capacidade de análise fortalece a cidadania, a liderança humana e a gestão de cultura organizacional.

👉 Se essa reflexão faz sentido para você ou para sua organização, me escreva para continuarmos essa conversa.

Vera Regina Meinhard é especialista em gestão de cultura e desenvolvimento de liderança humana. Formada em Administração pela FGV EAESP e Mestra em Sustentabilidade, fundou a Meinhard Connecting Voices em 2013, após 25 anos no Groupe Renault. Seu propósito é conectar pessoas e promover a integração consciente dos atributos do feminino e do masculino como base para organizações com ambientes mais saudáveis e resultados sustentáveis. É conselheira do IBESG, membra da GVAngels e idealizadora do Comitê Alumni FGVnianas na Liderança. Vera acredita que avanços começam pela escuta presente e pela ação de valores. É mãe e valoriza a promoção de uma sociedade que integre a igualdade de gênero.

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